Desavenças gastronómicas

Há uns tempos tive um aceso debate com dois colegas meus, uma norueguesa e um basco. O basco estava mais ou menos do meu lado, mas mesmo assim houve diferenças de argumento.

Esse debate foi sobre comida. Na realidade somos colegas de trabalho, e assim se celebrou mais um dia de bom esforço em equipa: a dizer que o outro come coisas estranhas…

A norueguesa descobriu nesse dia, por estarmos a fazer turno da tarde, que nós ibéricos jantamos por volta das 20/21h. Isto para ela foi um choque descomunal! “As pessoas jantam às 17/18h”, dizia ela, indignada. Nós reforçámos que os loucos são eles e a essa hora, quanto muito, lancha-se… e perguntámos se ela depois não ficava com fome quando era hora de deitar.

Ela diz que sim, por isso existe a kveldsmat, que traduzindo à letra é “a comida da noite”. Explicou que consiste em fatias de pão ou knekkebrød (aquilo castanho e rugoso que se vê na fotografia) com pâté e vegetais. *hiu* 

Nós argumentámos que isso é o que os noruegueses comem sempre, porque é! Seja pequeno-almoço, almoço, jantar ou kveldsmat… pelo que vejo. (se aprendem a ler português vou levar na boca)

Posto isto resumimos, cada um, como era um dia normal no seu país em termos de refeições. Fiquei a saber que os bascos ainda são mais hardcore a comer do que nós portugueses, e recordei com humor como os espanhóis comem bolachas ao pequeno-almoço. Quando me ri disso disseram-me os dois que, se eu como croissant com chocolate, vai dar ao mesmo. Dois contra um!

Houve muito mais peripécias nesta conversa mas é melhor ficar-me por aqui, não quero ferir susceptibilidades… nórdicas ou ibéricas. 😛

Isto tudo fez-me recordar que num outro dia tive a infeliz ideia de almoçar frango assado com batatas fritas, junto a um grupo de noruegueses e suecos. Fui tão vítima de bullying gastronómico!! Interrogaram-me sobre como raio conseguia fazer uma mistura daquelas, que coisa mais estranha. Chegaram ao ponto de me cheirar a comida com ar duvidoso! Enquanto eles mordiscavam as suas tostinhas alegremente (just another day!)…

E pronto. Isto são as alegrias e as lutas (haha) de viver o dia-a-dia num ambiente internacional. Adoro! 😀

Enquanto estou a escrever isto tenho ao meu lado uma amiga que ofereceu o seu almoço como voluntário para ser fotografado, depois de perguntar o que eu estava a fazer… Ela está envergonhada e divertida, porque eu acabei de descrever exactamente o que ela trouxe para comer, antes de ver! 😀 Uma salva de palmas para a S, norueguesa de gema e cumpridora de costumes, que facultou a imagem para este artigo. Ela até se predispôs a arranjar o prato para ficar mais bonito aqui. 🙂

IMG_9705

Ha det bra, snakkes!

11 thoughts on “Desavenças gastronómicas

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  1. Nem imagino qual seria a reacção de uma Norueguesa se me visse a comer uma bela de uma francesinha, umas tripas à moda do Porto ou uma feijoada à transmontana! 🤔
    De qualquer forma, cada país tem os seus costumes e gastronomia e temos de provar mais não seja para poder opinar.
    Difícil difícil deve ser um latino habituar-se a esse tipo de comida no dia a dia.
    E já agora, o nosso fiel amigo é nativo daí, como o confeccionam, se é que o comem? 😀😊

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  2. Acho que fugia a correr! heheh

    Claro que isto são os noruegueses de Oslo, um pouco mais básicos em termos de comida, e extremamente americanizados. Os únicos pratos típicos que já vi e provei aqui foram a comida de Natal, que comparado com as nossas tradições também não têm nada de especial. Pesquisa aí “lutefisk”! 😀 A cultura gastronómica não é o forte da Noruega.

    É difícil sim senhora. Porque para além de não haver nos restaurantes, claro, também não encontramos ingredientes para a confeccionar. Quando tenho saudades de Portugal é muito pela comida.

    O nosso fiel amigo aqui é comido fresco, eu diria que se compara à forma como comemos pescada em Portugal. Encontra-se salgado também, mas é quase uma iguaria, e muito caro – chamam-lhe klippfisk. Já me forneceram contactos de “dealers portugueses de bacalhau” 😀 !! Tem de ser assim…

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  3. Artigo muito engraçado 🙂

    A diversidade cultural (de que a gastronomia faz parte) é algo muito curioso. O que aqui relatas acaba por ser pouco surpreendente (não é grande novidade) mas, nem por isso, menos interessante.

    Falando por mim, quando viajo, gosto de me “empenhar” no que vou encontrar no destino. Quase como se fosse atrás de um sentimento de pertença, nem que seja por meia dúzia de dias.

    Isso passa por tomar contacto com os “locals”, aprender algumas palavras do idioma, conhecer a história do país (as suas especificidades) e, claro, provar novidades (iguarias) gastronómicas. Adoro e faço questão.

    Agora, uma coisa é ser aventureiro e experimentar produtos e pratos locais; outra, é fazer disso o dia-a-dia. Há certos hábitos que são difíceis de contornar: «tostas e pepinos? A sério»?

    Os horários são outra diferença assinalável. Que tem muito a ver com as condições meteorológicas de cada país, ou seja, se anoitece às 16h00 na Noruega, é natural que as pessoas jantem (tostas e pepinos) às 18h00.

    Em comparação connosco, mesmo aqui no país vizinho, os horários ainda são mais “estranhos” pois almoçam e jantam mais tarde do que nós, portugueses. Por exemplo: acho aceitável comer entre as 19h00-21h00, mas quem vai jantar às 22h00 pra frente quando no dia a seguir tem de acordar às 07h00 da manhã? Bem, se forem tostas com queijo e uns legumes laminados…

    Para terminar… “dealers portugueses de bacalhau”? Que expressão tão deliciosa [risos].

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  4. Boa análise. Os horários do trabalho e da escola dos miúdos também têm muito peso. Por aqui, quem trabalha de segunda a sexta-feira, termina o trabalho pelas 15/16h para ter tempo com a família. O jantar é logo a seguir, algo mais “pesado”, não os mesmos pratos que nós mas também não são sempre tostas. 😀 Espero eu! Depois do jantar as actividades dos putos, como me explicou a mesma colega com quem tive esta conversa. E depois sim, ir para casa e aí a kveldsmat.

    Neste momento já anoitece antes das 16h, e o dia nasce pouco depois das 8h.

    Se eu fosse fazer uma lista, é muita coisa para nós portugueses nos adaptarmos. Coisas que, parecendo que não, mexem bastante connosco. 🙂

    Dealer de bacalhau é uma coisa verídica! heheh

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  5. Algún día entenderás el placer de desayunar bolachas… 😉 Te puedes creer que no había oído hablar del kveldsmat? a eso nosotros lo llamamos la “recena” haha

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