Relatório de uma Infiltrada

Fez ontem quatro anos que me mudei para a Noruega – parabéns a mim! Quatro anos de lições e crescimento. Porque uma coisa é viajar, outra é passarmos o dia-a-dia inseridos numa cultura tão diferente da nossa em tantos pormenores.

Para celebrar esta data resolvi partilhar aqui algumas coisas que aprendi nos últimos anos, sobre a sociedade norueguesa. São tantas que dariam dezenas de artigos, mas para já vou escolher cinco. Se vir que gostam de saber estas coisas, poderei falar mais sobre isto no futuro.

  • Aprendi que o sistema de saúde aqui é melhor que o português, sem dúvida, mas aquela ideia cor-de-rosa que se pinta sobre as sociedades nórdicas (do nosso ponto de vista) é um exagero. A saúde não é grátis. O que acontece é que eu pago as consultas/tratamentos até um X de valor por ano, e se chegar a esse X (à volta dos 200€) a partir daí sim, ganho um género de free-pass e não tenho que pagar mais nada. Há quem aproveite e guarde os procedimentos mais caros para o final do ano, para dar mais utilidade a esse free-pass. À partida, o Estado também controla o que os médicos nos podem cobrar, para que não haja valores exorbitantes e todos tenham acesso aos tratamentos de saúde. Excepção, por exemplo, para grávidas e crianças até uma certa idade – neste caso é mesmo tudo gratuito. Haverá outras excepções, mas não vou entrar em pormenores agora.
    A título de curiosidade: as idas ao dentista não estão incluídas aqui, e a maior parte das pessoas viajam para fora do país para tratar dos dentes. Há serviços especializados nisso. Por exemplo no outro dia vi no jornal uma oferta de uma clínica de dentistas noruegueses na Hungria, um pacote de vôo + hotel + consulta no dentista. Interessante não é?
  • No âmbito das condições de trabalho, a saúde do colaborador é muito mais valorizada aqui. Existem duas coisas muito importantes para ajudar nisso, uma chama-se egenmelding e outra sykmelding – o último é a baixa que o nosso médico de família perscreve, e o primeiro somos nós que usamos “a gosto”. Há um limite de egenmeldings por ano, mas cada vez que não estamos em condições de ir trabalhar basta notificar o nosso chefe, e usando esse papel podemos ficar até três dias em casa – com tudo pago. Em caso de baixa é feita uma avaliação do nosso ordenado nos meses anteriores a esta, e o Estado paga-nos mensalmente de acordo com isso, para que o nosso estilo de vida não tenha que ser afectado por falta de saúde.
  • Aprendi que os noruegueses têm um problema com a bebida. Bebem demais e transfiguram-se completamente, não sabem dosear nem apreciar bebidas alcóolicas. Para tentar resolver isto o Estado controla a venda do álcool, e os preços são uma clara mensagem para desencorajar o comprador. Criaram lojas especiais chamadas Vinmonopolet (“O Monopólio do Vinho”) onde se concentra quase toda a oferta. Para terem uma ideia dos preços, um vinho que em Portugal me custa 2€ aqui poderá custar 15 ou até 20€. Resumindo e concluindo, desde que vivo cá deixei de ter o hábito de beber vinho à refeição! O Governo diz que isto é também uma forma de impedir que instituições privadas lucrem com a venda do álcool… A título de curiosidade: no supermercado pode vender-se bebidas de baixo teor alcóolico, num horário específico e com várias limitações.
  • Esta eu já sabia, mas não pára de me surpreender: o quanto eles dão valor a um dia de sol. É lindo de se ver, e uma lição de vida para nós portugueses. Se há um dia de sol neste país, faça frio ou calor, toda a gente sai à rua. É imperativo aproveitar cada momento de sol. Se forem a um parque num dia assim, vão ver pessoas sentadas de olhos fechados a sorrir para o sol, aproveitando a simplicidade do momento. Em Portugal em 100 dias de sol temos 10 de chuva, e mesmo assim as pessoas queixam-se… Nisto os nórdicos ganham, de longe!
  • A sociedade deles é, ou tenta ser, completamente transparente. Se eu quiser saber o quanto a Primeira Ministra ganha e desconta por ano, basta-me uma pesquisa na internet. O mesmo se aplica se ela quiser saber sobre mim, o que eu duvido, mas vocês percebem a ideia. Isto tem o lado bom e o lado mau, pois para mim continua a ser assustador ter toda a minha vida à mercê da pesquisa de cada um, mas para eles o pressuposto é que toda a gente é honesta e o Estado Social é mesmo um trabalho de equipa… Por isso qual é o problema? Aprecio a honestidade deles, e eles apreciam a honestidade dos outros – o que é bom.

Bem, só de escrever isto já me vieram mais 300 ideias à cabeça, mas não quero tornar o artigo extenso. Se tiverem dúvidas específicas deixem nos comentários, ou contactem-me directamente. Há muito a dizer sobre as diferenças entre nórdicos e portugueses, e lições a interiorizar dos dois lados.

Quanto a mim, tem sido um privilégio ter este inside job. Espero continuar como infiltrada nos próximos anos, e trazer-vos mais relatórios. 🙂 Neste quarto aniversário até fui presenteada com a primeira manhã de neve, o que nunca perde a sua magia!

Espero que gostem!

7 thoughts on “Relatório de uma Infiltrada

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  1. Artigo muito interessante de ler. Já tinha uma percepção de muito do que relataste, embora tenhas transmitido tudo em mais detalhe e pormenor. Impecável.

    E a adaptação, foi difícil? A linguagem foi o primeiro obstáculo, suponho… e em relação a estas diferenças do ponto de vista cultural e social?

    Parabéns pelos quatro anos e continua a partilhar estas, e outras, estórias.

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    1. Para mim não foi difícil, porque vim mesmo com gosto, mas conheço gente que está aqui há tanto ou mais tempo que eu e ainda não se adaptaram. Depende do quanto escolhemos ficar agarrados ao passado e aos costumes portugueses, acho eu. A única coisa difícil para mim, como já referi, é a comida. E algumas reações do corpo, consoante a luz excessiva no verão ou a escuridão do Inverno. Depois alargo-me mais sobre esse assunto. 🙂
      A língua é sempre um obstáculo, temos que aprender a falar, e é muito diferente da nossa. Mesmo se não quiseres falar tens que entender, quanto mais não seja para ir ao supermercado e encontrar o que procuras! Quando vim para cá a empresa ofereceu um curso de norueguês para atenuar o choque, e desde aí tenho aprendido por mim.
      Obrigada 🙂 sendo assim vou continuar!

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  2. Olá Maria 😊
    É com muito gosto que aos poucos vou percorrendo os posts que vai deixando, neste delicioso blogue que reflete juventude e maturidade, em igual medida, onde traz imagens lindas e as experiências ou pensamentos que a vão marcando. Parabéns, escrever não é tarefa fácil, mas fá-lo muito bem. Tenho a certeza que vai prendendo quem por aqui passa!😉
    A propósito da Noruega, e porque viajo muito entre livros, filmes ou documentários, via ontem à noite um dos episódios do excelente programa “ Inesquecíveis viagens de comboio “, conhece? Lembrei-me da Maria, embora não nos conheçamos 🙂
    Mas sei que vive em Oslo e já se percebe um carinho especial por esse país . É extraordinário o programa sobre a Noruega. Lindo, dos melhores da série. Em imagens e pormenores. Como exemplo apenas, alguém que opta por uma viagem de 7h, de comboio, a uma de 1h de avião, de entre outros motivos, porque é ambientalmente mais sustentável. Estamos a anos luz desta mentalidade….ou o pormenor de um naperon feito de calças de ganga…ou a forma como eles vêem “o outro”…
    Deixo o link, caso não conheça.

    Muito interessante a informação que nos deixa. Algumas coisas tinha noção, outras não conhecia de todo. Um mundo sem dúvida muito distinto do nosso.

    Parabéns pelo blogue, continue a escrever. Serão leituras de gosto.
    Um beijinho, Antónia

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    1. Obrigada Antónia, vou ver o vídeo que deixou, provavelmente ainda hoje! Sou adepta de viagens de comboio, e já fiz uma por estes lados, um dia inteiro num comboio que foi absolutamente memorável. Hei-de partilhar aqui.

      Tenho a certeza que depois de ver o documentário vou ficar com ideias, e terei de as pôr em prática! Já espreitei um bocadinho e gostei muito do que vi.

      Agradeço-lhe imenso o comentário, motivou-me a continuar com este hobbie!

      Um grande beijinho 😊

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  3. Acho que se essa transparência nos salários chegasse a Portugal resolvia-se muita coisa… Mas sim, é um jogo dos prós e contras da falta de privacidade. E quanto ao dentista, deviam fazer o mesmo aqui em Zurique… Já vi dentistas a cobrarem 300€ por consulta 🙊😂
    Parabéns pelos 4 anos de aventura!!! 😘

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  4. Adorei que comentasses que a saúde norueguesa não é grátis. PORQUE NÃO É GRÁTIS. Tenho colegas a dizer que é grátis mas não é, é grátis depois de teres atingido esse valor!
    Acho que é publicidade enganosa mesmo.
    As míudas a querer forçar-me acreditar que o sistema era gratuito e eu a dizer: grátis é uma coisa que se DÁ! É o mesmo que dar uma amostra e dizer que é grátis e depois pedir dinheiro por isso até um certo valor, mas depois é grátis! É grátis!? Não.
    Ficaram a pensar nisso, como se nunca tivessem pensado nisso nos pelo menos 21 anos de vida que têm.
    Depois o argumento foi: estás a queixar-te, quando existem pessoas a passar fome?
    Completamente dentro do assunto, totalmente ahah
    E não me estava a queixar, estava a constatar um facto. Mas tal como escreveste: transparências na sociedade… 🙂

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