Os portugueses e o frio

O frio, o maldito frio, a questão principal que os portugueses de Portugal abordam quando falam com os portugueses da Noruega (é isso e o bacalhau!). Uma questão interessante, que me dá sempre vontade de rir! Porque tem uma grande ironia associada, para nós portugueses no Norte…

Aqui já lidei com temperaturas a rondar os -20°. Como isso foi no meu primeiro ano emigrada e achei que era uma boa altura para passear à beira rio e ver a neve, é verdade que ia morrendo congelada… Mas, depois dessa lição, acho que nunca mais tive razão para me queixar do frio!

Sim, faz frio. Mas é um frio suportável, desde que estejamos correctamente equipados. É também importante gerir bem o tempo que se passa na rua.. Quando os meus pais me vieram visitar a primeira vez, em Fevereiro, lembro-me perfeitamente que saíram à rua com medo do choque térmico. Depois disso olharam para mim e perguntaram “é só isto?”. No termómetro a temperatura era assustadora, mas na realidade não se sente nada de dramático. Excepto quando há vento… Nesse caso fujam!!!

No interior dos edifícios está sempre uma temperatura confortável, e as casas estão bem isoladas. Curiosidade: os noruegueses (e eu) até têm o hábito de dormir com a janela aberta. Assim a cama torna-se ainda mais aconchegante, uma sensação que adoro! E não temos 500 lençóis e cobertores… Só um edredon – simples e eficaz.

Já em Portugal… Cada vez que lá vou no Inverno… É uma tortura! E por várias vezes regresso constipada. Está frio na rua, e é um frio húmido. Mas o pior é dentro de casa!! Não há camadas de casacos que me valham, nem mantas, meias e pantufas… nada! Depois de me habituar às casas aquecidas e confortáveis de cá, não suporto uma noite na sala lá sem querer correr para a cama e tentar aquecer-me com (vários) sacos de água-quente. É de loucos! É certo que existem aquecedores/lareiras, mas estão em divisões específicas, o que ainda torna mais difícil suportar as outras…

A sério, Mia do passado, como conseguias!? Especialmente tomar duche em casas-de-banho geladas, com aquele chão de tijoleira fresquinho… Ui! Aqui não temos disso, o chão da casa de banho está sempre quente, ou devido ao calor da casa ou pelo seu próprio sistema de aquecimento (que regulamos a gosto).

É por isto que os portugueses falam tanto do frio, coitados. É sem dúvida uma experiência traumática… Em Portugal!

São estas pequenas manias, estes hábitos que se vão criando, que me dizem que vou ficar por aqui… Se não for para sempre, será por muito (mais) tempo. Senão, ainda sofrerei bastante para voltar a habituar-me à loucura dos portugueses! É que não sei mesmo como conseguem viver assim… Logo eu, que vivi da mesma forma durante 24 anos! 😀

5 thoughts on “Os portugueses e o frio

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  1. Seja pela empatia, pelos pontos comuns, pela escrita ou por todas essas e outras razões, percebidas ou não, os textos da Maria vão prendendo e vão sendo um hábito.
    Nunca tive um blogue, mas talvez seja essa a sua missão. A partilha com outros/as, de ideias, ideais, experiências, objetivos, visões…

    Talvez já tenha referido mas gosto muito do que escreve e de como escreve. Gosto porque está bem escrito, coisa que eu aprecio e valorizo muito (e o nosso português anda por aí tão mal tratado…), porque são textos vivos, coloridos, sinceros, intensos, e é uma escrita que apetece, que corre a gosto (eu não sou pessoa de elogio fácil, tampouco difícil, elogio o que acho que merece, e não é mais que o o meu sentir). E depois porque nalguns temas, como este, revejo e reconheço sentimentos, momentos, situações, opiniões, conversas…que me são muito próximos.

    Ao ler algumas opiniões e comentários da Maria, tenho até uma sensação de “dejá vue”, porque estão muito em sintonia com opiniões/sentimentos expressas e partilhadas pelos meus filhos.
    Claro, tem uma razão de ser. Eles também estão fora e até há alguns meses atrás , ambos a viver num país com um clima, cultura e nível de vida/desenvolvimento, bem diferentes do nossso.

    Lia outro dia o post dos tremoços e não calhou comentar, mas logo me ocorreu o dia em que os meus filhos me mandaram, entusiasmados e surpresos, uma foto pelo WhatsApp de umas garrafas de vinho produzidas cá na terra (cujo nome faz inclusivamente referência à terra), levadas por um amigo comum, também português, para um jantar que eles tinham organizado em casa. E compradas lá, no supermercado perto de casa. Já não estou certa mas na Tesco, talvez. Em Inglaterra.

    Este post reproduz, de igual modo, tantas conversas cá de casa sobre os diferentes frios, e os banhos, a temperatura e o conforto das casas, num lado e noutro, etc, etc, etc..
    E também o meu sentir de mãe , ao longo do tempo, que gostando de voltar, por uns dias, eles são felizes no partir.

    Soube-me tão bem ler. Pela sintonia de opiniões, de experiências, mesmo de sentimentos. Até a ausência de vontade de vir e ficar. Talvez porque o partir não foi uma imposição mas antes uma escolha?? A integração no lugar onde se vive, a aceitação da aculturação, que acontece naturalmente mas que importa comprender , fará a sua diferença. Sem perder o amor às raízes e ao que elas acarretam, creio.
    Um beijinho Maria.

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    1. Antónia poderia emoldurar este comentário como referência futura, para que nunca desista deste gosto que estou a tomar pela escrita no blogue. De facto isto sou eu, e saber que alguém entende e gosta de ler é uma felicidade sem explicação!

      Pela referência aos seus filhos e à forma tão carinhosa como escreveu até disse aos meus Pais para virem aqui ler as suas palavras, e posso dizer que eles também gostaram muito. 🙂 Costumamos ter esta conversa, o quanto eles gostariam que eu voltasse, mas compreendem que eu não sinta necessidade disso. Compreendem que a minha vida é aqui. Acho isso extraordinário, essa capacidade de apoio incondicional, pois sei que sentem muitas saudades. Só me faz gostar mais deles, e ficar agradecida por tudo o que me deram! É o lado positivo de partir, aprende-se a dar ao que “sempre esteve lá”.

      Quanto a partir e à adaptação penso que a diferença está mesmo entre a escolha e a imposição. Grande parte (senão a maior) dos emigrantes que conheço, aqui na Noruega, estão contrariados e infelizes. E não são apenas os portugueses. Há muita gente que se mudou única e exclusivamente por trabalho e dinheiro. Claro que isso não traz felicidade a ninguém, pelo que andam aí passar um mau bocado! Interrogo-me porque não regressam, ou partem para outra.

      Felizmente esse não é o meu caso, nem será o dos seus filhos. 🙂

      Beijinhos!

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  2. Olá. Estou de viagem marcada para a Noruega por estes dias, para ir para junto do meu marido, que já aí está desde Julho. Foi com agrado que li este post, pois basicamente o que nele descreve coincide com o que o meu marido me vai transmitindo da sua curta experiência por aí. Não pondo em causa o que ele me diz, mas é bom saber que há mais pessoas que confirmam a opinião dele. Beijinhos e tudo a correr bem.

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