Integração: falar norueguês

Olá olá! Hoje vinha falar-vos de um tema diferente, mas desde que aqui cheguei já só penso em integração, devido ao dia que tive. Isto vai acabar por ser apenas uma viagem pelos meus pensamentos… Mas vamos a isso!

Um dos maiores obstáculos ao mudar de país é a língua, a não ser que no país em questão se fale português ou inglês. E mesmo assim há quem tenha dificuldades no inglês, embora pense que isso já não se aplica tanto na minha geração. Quando aqui cheguei eu não sabia dizer uma palavra de norueguês, nunca tinha sequer ouvido aquela língua na minha vida, e bem me lembro da dificuldade que foi começar a lidar com os clientes desde o primeiro dia de trabalho.

Os noruegueses são, provavelmente, dos povos que melhor dominam o inglês. Não só falam fluente como têm sotaques chiques, já que a maior parte viveu no estrangeiro nalguma fase da sua vida ou simplesmente por tanto terem viajado desde pequenos. No entanto o país é pequeno e recente, e eles têm muito orgulho nele e na sua cultura, e gostam (querem) que toda a gente fale norueguês. A língua é muito importante para eles e quem vem para cá viver tem de aprender, especialmente se querem trabalhar.

Eu, como disse, nada sabia sobre norueguês; o que hoje sei fui aprendendo por mim. Tive um ou outro curso que ajudaram, mas isso é só teoria, as interacções sociais não são como nos livros e nunca vamos ter tempo para pensar tão bem na gramática… Não foi assim há tanto tempo que comecei a arriscar falar no dia-a-dia, que perdi o receio de cometer erros e resolvi expressar-me com o vocabulário que sabia. Foi um clique: num dia tinha vergonha e medo de fazer figura de parva, no seguinte arrisquei e voilá. Posso dizer que foi uma experiências libertadora e que mudou para sempre a minha vida. Isto parece exagero, mas não é! Há pouco quando vinha a caminho de casa reflecti sobre isto…

Hoje por acaso tive que ir a várias lojas e tratar de vários assuntos, foi um dia agitado e de ritmo acelerado. Passei o dia quase todo sozinha e, à excepção de falar em português com o meu namorado/pais e “portunhol” com uma amiga, reparei há pouco que só me expressei em norueguês. Quer tenha sido cara a cara ou por escrito, nunca precisei de recorrer ao inglês ou de usar sequer o Google Translate (dos melhores amigos do emigrante, à semelhança do Revolut)… Até falei de equipamentos de esqui, usando vocabulário que aprendi na minha última semana de vida, sem nunca pensar duas vezes!

integração-1
Hoje foi também um dia com muita neve

Disto concluo duas coisas: nós Humanos somos de facto umas máquinas extraordinárias e que o meu cérebro está a assimilar, de forma activa e diariamente, uma nova cultura. Eu já não sou eu sem o meu norueguês, mas continuo a não ser eu sem o meu português. Já não há volta a dar. Se me perguntarem onde estou em casa, eu respondo que é aqui, sem ter que pensar muito. No entanto quando lá vou também me sinto um bocadinho em casa, e ouvir a minha língua continua a ser um conforto. No entanto… Continuo a ser a Mia que fala norueguês e ainda se sente espantada com isto! Estou a integrar-me aqui, a ficar confortável, a evoluir a minha personalidade nascida portuguesa com a língua e os hábitos deles. Isso enche-me de orgulho e simultaneamente de medos estranhos, que nem sei bem definir…

E pronto, chego ao final deste artigo sem ter dito (quase) nada de jeito! Mas era só uma reflexão… Do género “onde é que isto vai parar”? Tenho medo de um dia ter de começar de novo noutro sítio e o meu cérebro já ter passado dos 30 e não conseguir estes feitos. 😀 Afinal de contas, eu sei lá se quero ficar aqui para sempre…!

[Pouco a pouco vou arriscando tornar-me num híbrido estranho, sem nacionalidade definida e, pior ainda, a misturar palavras de todas as línguas sem conseguir formar uma frase com sentido. Será uma boa ideia para um livro?!]

9 thoughts on “Integração: falar norueguês

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  1. LOL, quando vim para Barcelona tinha vergonha de pedir uma Coca-Cola num bar; porque achava que não sabia dizer Coca-Cola. Até que uma amiga me disse: Hello!!! Diz-se igual em qualquer língua! bahahahah

    As barreiras somos nós que as pomos dentro da nossa cabeça.
    Imagino que o norueguês não será pera doce, mas inevitavelmente com o tempo transformar-se-á na tua segunda língua.
    Eu trabalho com o inglês diariamente, traduzo, dou aulas, etc… e quando viajo por aí, já nunca me sai o Hello/ Bye Bye; sem eu me dar conta as minhas palavras chave começaram a ser: Hola/ Deu (em catalão). As primeiras vezes não quis acreditar… mas é verdade, sem nunca ter estudado espanhol, este apoderou-se do meu cérebro e coração e é a língua dominante no meu léxico.
    Bem vinda ao clube da confusão linguística! 😉

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    1. Hahah bem sei… Conheço essa sensação! Adorei a história da Coca-Cola. 😀

      Pois eu aqui falei do norueguês mas na realidade tenho amigos de todas as nacionalidades e às vezes já não sabemos em que língua falar. Muitos são espanhóis (de várias zonas) e, até hoje, aquilo que mais me faz confusão é ter de falar espanhol. Ou melhor, portunhol… Porque eles querem que eu fale português para aprenderem, mas depois inevitavelmente chegam as palavras que têm significados diferentes e é só rir e ninguém se entende!

      Até digo mais, viva este clube, porque torna a vida tão mais colorida e interessante. 🙂

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  2. Ora aqui está uma reflexão interessante. Alguns comentários a respeito…

    Em primeiro lugar, não vejo outra forma de alguém se aculturar e adaptar a um novo país. Entre outras coisas, aprender a língua é um dos aspectos principais nessa adaptação e socialização.

    O facto de teres aprendido norueguês é um exemplo de crescimento pessoal, uma mais-valia e algo que te deves orgulhar. Pelo que tenho lido, inclusive as mais recentes aventuras no ski, vê-se que estás perfeitamente integrada numa nova realidade. O que é óptimo.

    Porém, algo (pensamento aleatório) que gostaria de partilhar contigo. Ao mesmo tempo que, a cada dia, estás mais norueguesa – na língua, nos costumes, nos hábitos – não sentes que te afastas do teu lado português? Eu diria que é natural que assim aconteça, porque a tua vida (o teu trabalho, as tuas relações humanas) passa-se num local diferente ao que nasceste. Mas, não temes perder traços de portugalidade? Em que medida é que esta adaptação não acaba (também) por moldar a tua personalidade? E daqui por 4 anos? Será que ainda gostarás de frango assado, por exemplo? Como sentes essa suposta ambiguidade?

    P.S. Um tema que gostava que falasses brevemente: música. Que coisas interessantes “made in” Noruega podes partilhar?

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    1. Em resposta a este comentário lembrei-me de uma história algo nojenta mas interessante. 😀 Numa das vezes que visitei Portugal ia convencida que o que mais queria era uma bela jantarada de carnes e vinho tinto, e assim foi. Comi tanto e com tanta gula que, depois, foi tudo fora! Serve isto para dizer que, por muito que o meu lado português continue a ter a mania das saudades da comida, o meu corpo já não está preparado para quanto essa comida é pesada em comparação com a alimentação a que a Noruega que habituou.

      Ou seja… Sim… Tudo está a ser moldado constantemente, em cada pormenorzinho do meu dia-a-dia aqui. Afinal de contas vivo agora num país onde tudo é diferente daquele em que cresci, começando pelo clima. E só o clima gera um leque de hábitos e influências na cultura deles, que eu inevitavelmente tenho que observar e absorver “para sobreviver”. Pura e simplesmente não posso viver aqui como viveria em Portugal, porque o ambiente é completamente distinto.

      Como tal não voltaria para lá de ânimo leve, e em muitos aspectos teria de passar pelo processo inverso. É essa a factura a pagar…

      Quanto à música, isso vai ser complicado… Não tenho por hábito ouvir música daqui, mas poderei tentar pesquisar 🙂 É uma boa ideia, obrigada!

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  3. E isso é ter o Mundo como pátria.

    Com todas as dificuldades que transporte, acredito que os pontos positivos ganham e são muito enriquecedores. No real sentido da palavra, porque somos tão mais ricos quanto mais experiências e vivências conseguimos ganhar.

    Vou fazer uma confidência. Tenho um neto lindo, querido e maravilhoso, como todos os/as netos/as, claro, que quase não me conheceria se não fosse o milagre das novas tecnologias, mas que quase todos os dias pega no telemóvel do pai e diz “ avóóó” para o pai nos “ligar” (“avó” serve para ambos, para o avô e para mim).
    Tem quase 18 meses, nome catalão, nasceu em Inglaterra e vive desde abril do ano passado na Catalunha ( a mãe é catalã).
    O pai fala com ele português, nós também e a restante família portuguesa claro, a mãe e restante família catalã, em catalão, e os pais entre si falam em inglês.
    Ainda contacta com o espanhol, claro, e quando nos visitam, com o alentejano ;). E não é que o avóó dele tem sotaque alentejano?? 😀
    Muitas vezes me questiono sobre a confusão linguística que irá naquela cabecinha 🙂

    Pegando no que o Ricardo disse, acredito que as raízes nunca secam, especialmente se forem regadas. Mas são capazes de tomar formas diferentes.
    Deixo outra confidência. Ainda hoje enviei uma encomenda para Inglaterra porque o meu filho pelo Natal esqueceu algo de que precisava, e lá seguiram também o queijinho alentejano, o paio, o café, o pimentão moído, o bacalhau, enfim, aqui é a mãe a regar as raízes 🙂 . Na parte gastronómica referem-me que a cozinha inglesa não existe. E estão mais ligados a outras cozinhas do mundo por isso mesmo. Mas a nossa ocupa um lugar especial.

    Do que a Maria escreveu noutro artigo, a Noruega não parece também ter uma cozinha rica.
    Ou seja, também pela gastronomia, a ligação parece inquebrável.

    E depois, mas em primeiro lugar, há a parte afetiva, familiar, os alicerces.

    Há ainda aspectos a que antes não pareciam dar muita importância e que agora servem para alimentar a portugalidade. O futebol, por exemplo. Se antes gostavam, agora vibram.
    Na questão linguística, não noto diferença, quer na escrita quer na conversa, ainda que eles digam que também pensam em inglês.

    Mas sim, sem dúvida que um bom processo de adaptação, assim como o motivo da partida, pesam muito na decisão de ficar, como já tínhamos comentado noutro artigo da Maria.
    E também pesa para sermos felizes, vivermos bem no local onde estamos e isso é o que mais conta.
    De qualquer modo, cada pessoa é diferente de outra e vive experiências diferentes.
    É um tema muito interessante que dá pano para mangas 😉 e é um gosto ler e poder comentar as reflexões da Maria.

    Um beijinho.

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