Bom dia e boa tarde

Subindo a encosta, com os meus novos mocassins azuis (diz que são made in Portugal). Não fui muito feliz na escolha do calçado – calçado para esta calçada é obra – mas este passeio foi espontâneo. Pela primeira vez, numa semana caótica, estou a ter um momento para mim. A vontade de escrever sobre o meu país era muita, e disse-me a intuição que agora seria um bom momento para tentar. “Vai, anda e inspira-te”. Ah pois, não sei se já referi, mas estou por terras lusas!

À minha direita está um senhor à janela, a olhar-me de alto abaixo, sem disfarçar e com cara de poucos amigos. À esquerda uma senhora noutra janela, mas essa é mais discreta e está parcialmente escondida atrás de uma cortina rendilhada. A calçada tem musgo e de resto não se vê ninguém, ouve-se chilrear e máquinas agrícolas, cheira a uma mistura de mar e terra húmida. Mais à frente vejo umas quantas casas para venda, e de vez em quando uma ou outra em ruínas. Os estores (ah, os estores!) estão corridos nas outras, provavelmente devido ao calor que se faz sentir.

Casa abandonada

Ao atravessar a única estrada alcatroada mostro-me cautelosa, mas afinal não valeu a pena porque não apareceu carro nenhum. Se não soubesse melhor diria que estou numa aldeia deserta. Mentira! Ali está outra senhora à janela. Agora veio à porta. Já que tanto me olha arrisco dizer “boa tarde” – era isto que eu fazia, antigamente, não era? A senhora responde: “Boa tarde!”. Sucesso! Ainda sou portuguesa. Repito o processo quatro vezes, (re)aperfeiçoo a arte e até ganho uns sorrisos em troca.

No topo do monte e da aldeia, onde a vista é mais bonita e o vento nos traz histórias do Oeste, já só se vê duas ou três casas. Casas não, vivendas. Vivendas modernas, cada uma no seu canto, cada uma com a sua vista privada, onde o estacionamento para os ilustres convidados é garantido. Aqui há muita calçada, vários terrenos que prometem localizações fantásticas para quem os quiser aproveitar, mas ninguém para investir. Aqui há riqueza e há vazio, nada pelo meio. Ganham as ervas daninhas, abandonadas ao seu destino e bel-prazer, e os terrenos das vivendas modernas em que quase não há espaço para tantas posses. Contrastes.

Moinho abandonado

Cheguei ao meu destino. Os moinhos de vento. Estão abandonados e grafitados, mas ainda assim bonitos e coloridos sob esta luz maravilhosa. Descanso um pouco junto a eles, olho em volta e escuto o silêncio e o vento. Aproveito para verificar o estado de saúde dos meus mocassins e respiro fundo. Por entre o verde vejo “azedas” e papoilas e sorrio, revisitando memórias de criança. Questiono-me, pela centésima vez, se poderia voltar a viver aqui. Com o vento claro que sim, mas poderia eu ter uma destas vivendas modernas e usufruir desta vista maravilhosa? O cenário perante mim sussurra-me que as probabilidades não são sorridentes, e a papoilas parecem murchar. Decido regressar ao carro, deixando os moinhos e as questões complexas para trás.

No caminho de regresso reencontro um gato que já antes tinha cumprimentado. Entretanto ele mudou de sítio e está a dormitar no meio da estrada – não há perigo. As pessoas que antes me observavam desapareceram, seja porque eu já não sou novidade ou talvez porque o programa da tarde começou, na TVI. Ou futebol.

Azedas

Vamos ao cliché, que o coração obriga: meu querido Portugal, meu querido Oeste, gosto tanto de vocês! Obrigada por estes momentos. São exactamente do que me recordava, e ao mesmo tempo tão mais que isso. Espero que não estejas só e abandonado como aparentas! Hoje é dia de semana, e o sol está forte.

Até à próxima! Sempre com uma saudade saudável, porque isso faz parte da vida… E da minha portuguesice, que é hereditária, sim?

2 thoughts on “Bom dia e boa tarde

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