Nacionalidades

A caminho de casa, passam duas crianças por mim, vão a rir-se e a brincar uma com a outra. Uma tem feições indianas, a outra é asiática, talvez coreana. Ambas parecem ter o norueguês como língua materna. Eu sou loura de olhos azuis, muitos pensam que sou de cá, e bem podia sonhar falar como elas falam! Sorrio e penso em nacionalidades… e estereótipos.

Há uns tempos, em Dubrovnik, encontrámos um grupo de portugueses. Quando me perguntaram de onde era eu respondi “de Portugal”, o que foi motivo de riso. Mais tarde percebi que essa resposta foi automática, dada por hábito. Afinal de contas, nos últimos anos da minha vida, ninguém me costuma perguntar de que zona de Portugal sou… Ou, se o fizerem, é depois de terem perguntado de que país sou. E essa é, muito provavelmente, a pergunta a que mais respondo.

Os colegas noruegueses dizem-me que falo muito bem a língua deles, mas tenho um sotaque que os deixa curiosos desde o início. Já aprendi, de forma frustrante mas que tenho de aceitar, que por muitos anos que passe aqui e independentemente do quanto domine o norueguês… vou ser sempre estrangeira. E não consigo sequer disfarçar! Basta abrir a boca e falar, puuffff. Depois disso vem a pergunta sobre a minha nacionalidade, e a seguir querem sempre saber porque e como vim aqui parar e se quero ficar “para sempre”. É quase um ritual!

No emprego tenho a fantástica oportunidade de colaborar com pessoas de todos os cantos do mundo. Trabalho num ambiente internacional, onde apesar de os noruegueses serem maioria e o norueguês ser a língua que mais se usa, posso viajar sem saír daqui e aprender imenso sobre outros costumes e países. Também conheço muitos filhos de emigrantes, os quais considero particularmente fascinantes, pois são noruegueses mas sempre com uma costela daqui ou dali que fazem questão de exibir com orgulho – pelo menos a maioria.

No outro dia atendi um cliente que tinha passaporte da Suíça. Ao verificar a identidade, apercebi-me que o nome dele era português. Meti logo conversa em português, cheia de curiosidade porque imaginei que fosse filho de emigrantes, e ele ficou muito atrapalhado e respondeu-me na minha língua mas claramente em estado muito enferrujado. Voltei ao inglês e ele sentiu-se logo mais à vontade.

Tenho uma colega, com quem tenho passado imenso tempo, que pode ser considerada “norueguesa pura”. E ela diz-me… que de norueguesa tem muito pouco, e pouco se integra aqui. Identifica-se muito mais com os povos do sul, daí gostar tanto de estar comigo.

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Pausa para vos presentear com a fotografia de uma mãe-pata e a sua cria, a aproveitar o sol de Oslo. Talvez sejam norueguesas ou talvez não, e duvido que isso lhes interesse…

E qual o objectivo deste artigo? Nenhum em concreto. Não tenho dados científicos para tirar conclusões, mas parece-me que vivemos todos com rótulos e backgrounds que nem sempre nos definem, nem sempre nos fazem sentir em casa. E que estar em casa é mais relativo do que eu pensava, antes de vir para cá! Para mim, estar em casa é estar rodeada de gente não portuguesa, mais do que de gente portuguesa. Porquê? Porque adoro a diversidade! Adoro as histórias das pessoas, as diferentes vivências, os dramas para lá dos portugueses. As semelhanças e as diferenças. É fascinante!

E se tivesse que me atrever a tirar uma conclusão, correndo o risco de levar umas boas chapadas de algum nacionalista obcecado, diria que ninguém pode saber o que é a sua casa até se afastar dos lugares e pessoas que sempre conheceu. E não me refiro a viajar, tem de ser mais que isso! Não há aprendizagem como essa, e repito as vezes que forem precisas (para vos convencer e descansar a minha Mãe) que isto foi a melhor coisa que me aconteceu.

… Entretanto tive uma conversa com o meu senhorio e ele perguntou-me se, quando a possibilidade de dupla nacionalidade for aprovada, me vou querer tornar oficialmente meio norueguesa. Tanta coisa e fico KO com uma pergunta destas. E agora? O que acham vocês? …

Até já!

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8 thoughts on “Nacionalidades

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    1. Muito bem visto. Nunca serei menos do que 100% portuguesa! Se há coisa que viver no estrangeiro me faz é ter mais orgulho na minha nacionalidade, do cantinho cheio de personalidade onde cresci. Adoro dizer que sou portuguesa e falar sobre o meu país 🙂
      Beijinhos!

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    1. Sem dúvida 🙂 acho que somos dos povos que mais tem para partilhar com outros, em termos de vivência e cultura. Tantas vezes pensam que falo espanhol e por cada uma dessas vezes eu defendo a honra da minha língua com unhas e dentes! Lá está, genes.
      Mães a criar filhos entre países… isso será outro nível de “confusão” de nacionalidades, para elas e para eles, diria eu.
      Cumprimentos!

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