Norueguices

Viver a crise na Noruega

[isto é sobre o surto de COVID-19 aqui]

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Foi no final de Fevereiro que apareceu a primeira pessoa infectada, no norte da Noruega. Até aí estávamos tranquilos e o Governo insistia apenas nos cuidados básicos, porque o vírus haveria de cá chegar. As coisas já estavam mal em Itália mas muitos continuaram a viajar para lá, assim como para outros destinos de férias de Inverno (por exemplo a Áustria, de onde importámos mais casos).

Numa questão de dias os números multiplicaram-se. Entretanto as autoridades competentes avisaram-nos que, em breve, a situação iria agravar-se porque já se tinha perdido o rasto dos contágios. Ou seja, já não se conseguiam ligar os novos casos aos focos conhecidos; o contágio ocorria cá dentro.

E assim foi, a cada dia passámos a ter centenas de novos casos. Eventualmente a Erna Solberg anunciou a implementação das “medidas mais drásticas que a Noruega já viu em tempo de paz” e o país começou a parar. Encerraram as instituições de ensino, as empresas apostaram no teletrabalho e apelou-se ao sentido comunitário das pessoas, que ficassem em casa para bem de todos. Quem tinha viajado no final de Fevereiro/recentemente viu-se obrigado a fazer quarentena doméstica. Pouco a pouco as coisas foram fechando. Oslo não está completamente parada, mas nota-se diferença.

No meio daquilo assustei-me a sério. Apercebi-me que na farmácia estavam a racionar o paracetamol e que nos supermercados havia gente a mais, prateleiras a ficar vazias. Tive medo da estupidez e egoísmo das pessoas – infinitamente mais perigosas que qualquer doença… Apesar de tudo acho que isso foi o pico do pânico, precisamente no dia em que o Governo pareceu despertar para a gravidade da situação.

No aeroporto de Oslo já há algum tempo notávamos o efeito do coronavírus, com dezenas de voos cancelados todos os dias e alturas em que estava quase vazio. De repente apareceram soldados nas Chegadas a reencaminhar os não residentes na Noruega para uma quarentena obrigatória, até conseguirem regressar ao seu país. Isto depois de se perceber que controlar o fluxo de passageiros de países como Itália ou a China, que supostamente representavam uma maior ameaça, não havia surtido efeito para conter o vírus… Falava-se em fechar fronteiras, a Dinamarca já o tinha feito.

Entretanto foi accionado um pacote de crise para salvaguardar as empresas, permitindo-lhes “dispensar temporariamente” os seus colaboradores enquanto o Estado assume os salários. Facilitaram-se burocracias e parece-me que andam a trabalhar noite e dia a criar novas regras e leis para esta situação extraordinária em que nos encontramos. Isto é uma crise sem precedentes, com a qual vários países podem não ter os meios/Estado social para ajudar justamente quem precisa… Só os idiotas (sorry, not sorry) é que ainda não se aperceberam da sua magnitude.

Resta dizer que, à data de hoje, testam-se apenas profissões de risco e doentes que apresentem sintomas graves. A decisão serve para salvaguardar os profissionais de saúde, para poupar testes e para que se mantenha uma visão real sobre o número de mortes devido ao COVID-19. Isto está a gerar polémica, já que a OMS recomenda que se teste o máximo de pessoas possível…

Agora há cerca de 1500 infectados confirmados e 6 pessoas já perderam a vida. Desde que escrevi o artigo, ontem à noite, o número de mortes duplicou. Todos os dias milhares de pessoas são testadas.

Curiosidade: os nossos líderes demonstram uma grande preocupação com as crianças, com o impacto psicológico que tudo isto pode/rá ter nelas. Apelam a que tenhamos isso em consideração, sempre. Próprio da sociedade norueguesa, esta atenção.

Neste momento a situação não me parece muito diferente daquilo que se está a viver em Portugal, por lá apenas se tomaram as mesmas medidas muito mais cedo do que aqui. E, sabendo o que sei hoje, diria que muito bem!

Boa sorte a todos, nestes tempos difíceis.

Caso sejas emigrante noutro país, conta-me a tua história! Estou preocupada com os efeitos que isto terá na minha geração, tantos de nós que estavam finalmente a estabilizar e a construír as suas vidas… e agora mais uma crise para cima. Força aí! Estamos juntos.

3 opiniões sobre “Viver a crise na Noruega”

  1. estão uns dias muito preocupantes. os Estados têm sido algo irresponsáveis nas medidas a tomar, depois de verem o que aconteceu na China. agora não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Precisamos de cumprir ordens e salvaguardar o melhor possível o interesse coletivo para o bem de cada um. aqui em Portugal, apesar de tudo, se na semana passada houve irresponsabilidade por parte das pessoas (imensa gente na praia, por conta do bom tempo), logo a seguir
    responderam bem aos apelos do ficar em casa. menos mal.
    tudo de bom.

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  2. A Noruega, por acaso, foi um dos casos que mais me chamou a atenção, pela rápida progressão do contágio – especialmente, porque a população total são apenas cerca de 5 milhões e por, geograficamente, não estarem nas imediações dos grandes focos em Itália. Mas já percebi pelo artigo, que a maioria foram casos importados da Áustria. Boa sorte para os tempos que se seguem 🙂

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