Pensamentos Aleatórios

Elefantes

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Outono em Portugal, 2019

Este ano começou com o espectáculo de fogo-de-artifício mais memorável de sempre, e agora quase no final de Agosto sinto que me me pesa horrores nos ombros.

Este ano levou-me tanto. Fez-me perceber, à força e em jeito de balde de água gelada, que escolhi viver a minha vida longe de tantas pessoas que são importantes e imprescindíveis nela. Este ano trouxe-me uma solidão (isolamento!) que eu nunca antes tinha sentido. Uma saudades imensas e um medo que desconhecia. Uma dúvida monstruosa – the elephant in the room.

2020 cancelou viagens, anulou planos de férias, impediu escapatórias. Arrasou visitas agendadas, meteu toda a vida de uma emigrante em perspectiva. E continua assim, sem luz ao fundo do túnel.

De repente, o longe é mesmo longe.

Este ano tem-me dado mais tempo livre que nunca com o meu bebé, enquanto ao ouvido me vai repetindo maldosamente quanto tempo ele está a perder com outros que também amamos… E, só por isso, hoje o meu coração procurou este teclado para se expressar.

Foi-se-me o trabalho e a inspiração para escrever, foi-se-me a ligação ao blogue porque de repente o mundo deu tal volta que já nem isto faz sentido ser como era. Ou faz, se calhar faz, mas é preciso que eu encontre o fio à meada.

Não serei a única arrasada por este ano. Antes fosse. Se fosse só eu a prejudicada, o sentimento seria tão mais fácil de processar e arquivar…

Quanto se mete um pequeno ser que amamos ao barulho, as coisas mudam. O meu maior conforto é que ele nunca se vai lembrar de 2020 nem ter noção daquilo que perdeu. Só vai importar o quanto brincou e cresceu, e o quão feliz foi (e me viu ser) todos os dias.

(há dias e dias, hoje foi um dia para pensar nisto)

[e sim, eu sei que o ano ainda não acabou…]

PS: pode ser que assim isto desencrave

7 opiniões sobre “Elefantes”

  1. Do vosso teclado para os seus leitores e agora do meu teclado para si, ajunto as minhas palavras para dizer que estamos todos juntos nesta solidão incomum. Aliás, o que estamos a passar não é bem solidão mas isolamento social. Existe uma diferença: Solitude (em inglês) é algo bom para a nossa alma, oferece-nos momentos de recolhimento espiritual, mas sempre podemos voltar à comunidade humana, o que não se passa agora. É por isso que sentimos este isolamento que deixa a alma amargurada.

    Espero que esta temporada da pandemia acabe (em breve) e que possamos voltar à vida que conhecíamos para que o seu filho cresca dentro da nossa preciosa humanidade.

    Força e obrigado por ter a coragem de partilhar as vossas palavras aqui no seu blogue. Valeu a pena.

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  2. Exactamente! Aliás, foi por estar sozinha naquele momento que acabei por ter o prazer de vir aqui escrever. E que bem que soube…

    Acho de extrema importância que se saiba dar voz tanto aos sentimentos positivos como aos negativos. Uma coisa facilmente ignorada, neste mundo de filtros. Aqui no blogue não quero disso!

    Por aqui não temos estado muito isolados, mas entre países a conversa é outra. E mesmo cá dentro, as coisas voltaram a piorar… Espero que aí estejam melhores!

    Obrigada! Cumprimentos!

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  3. Sim, já percebemos (quase) todos que há um elefante na sala!
    Que mesmo não partindo tudo, deixará muitos estragos.
    Acumulamos saudades e sentimentos de culpa e medos e inseguranças em tempos que parecem (e são) muito loucos e de uma solidão imensa que parece nunca mais acabar.

    Toda a vida será feita de escolhas, que implicam o sacrifício de algo. Quando não temos escolha, ou não a vislumbramos no imediato, o sacrifício e dedicação por um bebé que se ama muito é uma oportunidade e um investimento extraordinário. Há de crescer seguro e feliz com os pais inteirinhos todo o tempo para si, e partilhar essa felicidade com todos os outros.
    E, não vá ela esquecer-se, lembrará a mãe todas as vezes, que ela é a melhor mãe do mundo.

    Obrigado por esta partilha, livre, genuína, autêntica, sem filtros, a sublinhar que este espaço onde teclamos também pode e deve ser isso.

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  4. Que texto!
    De facto, começar 2020 com fogo de artifício e depois “terminar” com aquilo que sabemos hoje, é lixado. Um ano atípico, com muita confusão, em que se está a ver o que realmente o ser humano tem de bom e de mau.
    Esperemos que isto acabe o mais rápido possível, porque, 6 meses já é muito….
    O meu começou com a viagem à Islândia (link para o post mais recente sobre o tema – vídeo), mas até tivemos sorte, pois a pandemia a poucos dias de chegarmos a casa (e, por mais uma semana, se calhar nem tínhamos saído da Islândia tão facilmente). Agora, tudo o que são planos, remetem-se apenas e só a “Vá para fora cá dentro!”. 🙂

    Abraço e tudo de bom! 🙂
    PS: Aproveite este tempo para estar com o filhote.

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  5. Obrigada pelo comentário! Ainda podemos tentar viver na ilusão de que tudo se resolverá com o novo ano, um bocadinho de esperança nunca fez mal a ninguém…

    Vou ainda hoje espreitar o vídeo, pois ainda não o vi. Considerámos a Islândia quando as fronteiras voltaram a abrir, pois só estava aberta ao Norte, mas resolvemos passear por cá. Sem turistas a experiência é outra!

    cumprimentos

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  6. É mesmo! Vamos ver quanto tempo demora. 🙂

    Boa! Depois dê feedback lá no YouTube. Já agora, saiu também um sobre um local maravilhoso aqui na minha ilha. 🙂
    Vale a pena irem à Islândia. Sem turistas, deve ser ainda mais maravilhoso.

    Cumprimentos

    Gostar

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